Indy e Blitz (jornal) caput


Dois jornais que marcaram uma época no jornalismo Português deixaram recentemente de estar nas bancas - no caso do Blitz, apenas parcialmente, visto ter passado a revista mensal. Eram dois fins anunciados, pela incapacidade de ambos serem tão relevantes como o haviam sido no passado, o que se veio a reflectir nas vendas. Quando assim é, há que pôr de lado a nostalgia e aceitar o fim inevitável.
O Blitz e o Independente foram, de formas diferentes, duas pedradas no charco de uma imprensa, estética e ideologicamente, acomodada. O Blitz surgiu em 1984 quando a escrita sobre música em Portugal era ainda um apêndice subserviente da pequena indústria discográfica. Celebrou a música nova, nacional e Anglo-Saxónica, com destaque para o filão independente que começava a chegar às lojas de discos através de pequenas editoras e distribuidoras. Acolheu a pop mais mainstream onde ela era interessante e original. Tratou com respeito, mas sem reverência, o passado da pop e as vacas sagradas que antes dominavam os media. E introduziu um novo conceito estético, com um uso da fotografia e de formatação do texto, nunca antes vistos na imprensa nacional. De entre os muitos escribas que por lá passaram, destacam-se entre outros Luís Maio, Rui Monteiro, Miguel Franciso Cadete, Nuno Galopim e Luís Peixoto - este último responsável pelo meu fascínio pela renascença do rock Americano em meados dos anos 80. O jornalismo sobre música, incluíndo o próprio Blitz, evoluíu e muito desde então. Não há como comparar o jornalismo "militante" do Blitz dos anos 80 com as publicações de hoje - sobretudo com os suplementos de cultura popular do DN (6ª) e do Público (Y). Mas o impacto cultural numa geração ávida por novos sons e tendências estéticas, esse fica e deve ser assinalado.
O Independente surge em 1988 e o facto de ter sido, desde o início um projecto de uma certa direita "independente", só me leva a reconhecer que a qualidade e interesse de um jornal na esfera pública não se pode medir pelo seu posicionamento político. Os méritos políticos do Independente no desgaste do segundo governo de Cavaco Silva são sobejamente reconhecidos e devem ser assinalados, mas não é por aí que eu o recordo. Dele recordo, acima de tudo, os textos acutilantes de Paulo Portas e Vasco Pulido Valente e, bem no seu início, de Miguel Esteves Cardoso (antes de passar de hilariante cronista social a decadente comentador de tudo e mais alguma coisa). Também o faro jornalístico da Helena Sanches Osório. E também o 3º caderno com o impagável Ran-Tan-Plan assinado por Carlos Quevedo. Tal como o Blitz, era um projecto estéticamente arrojado e com um estilo de escrita que rompia com a tendência para o pastelão filosofante das publicações da altura. Com o Independente a nossa imprensa passou a ser um bocadinho mais Anglófona e menos Francófona e, em nome da diversidade, ainda bem que assim foi.
P.S. - A Blitz tem demonstrado ser uma mudança para melhor relativamente ao jornal Blitz de recente memória.


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