Tão perto tão longe
Talvez esteja a ficar velho mas quando vou a um concerto de rock tenho cada vez menos pachorra para ficar de pé o tempo todo. Ao fim de vinte minutos, dou comigo a desejar estar como no mais recente concerto dos Yo La Tengo na Aula Magna: sentado numa poltrona, tal como se estivesse a assistir a um recital. Os concertos de rock para mim nunca tiveram muito essa coisa de evento comunitário. Estou lá para ver e ouvir um artista de que gosto e o comportamento do público apenas conta enquanto reacção pavloviana ao que se passa em palco. A única vez que me entusiasmei verdadeiramente com o espectáculo do público, foi num concerto em que estava tão longe do palco que mal reconheci a banda em palco e as músicas que iam tocando: o dos Pearl Jam, no espaço mais anti-música que pode haver - o Pavilhão Atlântico. Nessa noite, do alto do segundo anel e incapaz de apreciar a massa sonora indistinta que me chegava aos ouvidos, distraí-me com o único espectáculo que podia captar daquele lugar, o do público a cantar de cor as letras das canções.O concerto de Bonnie "Prince" Billy no Maxime não aconteceu para mim. A sala do Maxime, que ainda no Sábado teve em cartaz uma festa de celebração do lançamento em DVD da trilogia "Vixens" de Russ Meyer (com um hilariante momento de strip abençoado pelo mestre de cerimónias Manuel João Vieira e a actuação dos Ena Pá 2000 a garantirem o resto da folia), parecia demasiado grande para um show tão intimista. Não que Will Oldham nos estivesse a dar um recital. Ao contrário do que esperava, o tipo é comunicativo, irónico e tem sapiência nestas coisas de estar em palco e encenar momentos. Mas só acompanhado por uma guitarra e com a companhia em boa parte do concerto da voz de Dawn McCarthy dos Faun Fables (que tocaram na primeira parte) e com a sala bem composta, era necessária outra atmosfera para que, quem como eu ficou de pé cá atrás, pudesse apreciar devidamente todos os detalhes da actuação. Claro que gostei do concerto, mas foi quase como se estivesse a avaliá-lo depois de vê-lo em vídeo ou num ecrã à parte. Apesar de o próprio Will ter vangloriado o facto de estar a tocar numa "whorehouse", o Maxime não fez justiça à música de Bonnie "Prince" Billy. Só quem chegou mais cedo e se sentou nas mesas em frente do palco pode contar uma história diferente. Cá atrás as histórias e as epifanias musicais de Will Oldham eram abafadas pelas conversas do bar. Foi pena.


0 Comments:
Post a Comment
<< Home