Por trás daquela janela (não cabe a alma do Zeca)
Assinalou-se na passada sexta-feira o vigésimo aniversário da morte do grande José Afonso. Eu digo grande José Afonso e pergunto-me porquê. Porque dizer-se o mesmo da Amália seria uma banalidade redundante. E de António Variações, que foi sempre grande mas que já não precisa desse atributo depois de ter sido imortalizado pelos Humanos, também. E já agora de Eusébio, Figo e outros ícones nacionais. Se digo grande José Afonso é porque pelos olhos dos meios de comunicação, ele aparece pequeno, demasiado pequeno para a importância da sua obra. Há pouco José Afonso nos meios de comunicação e é notório que os media, todos reconhecendo o seu génio e importância na história da música e da cultura Portuguesa, têm dificuldades em lídar com o seu estatuto dentro da mesma.Mas há razões demasiado fortes para isso. Há pouca documentação visual sobre a carreira artística do Zeca. O único documento ao vivo parece ser o concerto no Coliseu em 1983 quando a sua saúde já não era a mesma. Ele nunca foi uma figura mediática, nunca houve uma imagem construída - ao pé dele, o Bob Dylan (numa abordagem frívola, o Zeca Afonso Anglo-Saxónico) era um verdadeiro manipulador de imagens, uma primadona mais próxima de Robbie Williams do que do Zeca, mesmo salvaguardando-se a "autenticidade" da música. Por isso, a imagem que fica do José Afonso é a do cantor de protesto, parte integrante da iconografia (sonora) do 25 de Abril por causa de "Grândola Vila Morena". E se pensarmos na música, há que dizer que Zeca Afonso nunca foi um artista das massas. E é o cada vez menos, numa sociedade tão mediatizada e dependente das imagens. Era um cantor que encarnava o espírito da música enquanto evento local comunitário, dirigido a uma pequena audiência, não apenas políticamente interessada mas com um ouvido exigente que sabia que havia ali um significado mais profundo do que o do nacional-cançonetismo que lhes era impingido na altura pelos meios de comunicação. E "Cantigas do Maio" e "Eu Vou Ser Como a Toupeira" são discos nada ortodoxos, com soluções de arranjos altamente originais e composições fortemente experimentais na forma. E por estas e outras razões, os meios de comunicação, sobretudo a televisão, serão sempre uma janela demasiado pequena para captar a essência de José Afonso.
Mais do que questionar a falta de José Afonso na televisão importa pois perceber que esta televisão não foi feita para ele - ao contrário de António Variações que tem agora as condições necessárias de abertura de mentalidades na sociedade Portuguesa e importância da imagem para ser evocado e ganhar uma dimensão maior do que a que teve em vida.
O aniversário da morte de José Afonso foi assinalado com vários colóquios, exposições e concertos por esse país fora e é mais nesse contexto que a sua vida e obra deve ser celebrada e compreendida.
Ler também o texto de João Lopes no seu blogue. Para mais informações sobre a vida e obra de José Afonso, clicar aqui .
E das muitas grandes canções que o Zeca escreveu, esta é, com todo o respeito pela opinião de outros, a mais bonita:
Por trás daquela janela
Letra e música: Zeca Afonso
In: "Eu vou ser como a toupeira" 1972
(Dedicada a Alfredo Matos que se encontrava preso)
Por trás daquela janela (2x)
Faz anos o meu amigo / E irmão
Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão
Se aquela parede andasse (2x)
Eu não sei o que faria / Não sei
Se a minha faca cortasse
Se aquela parede andasse
E grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer
Talvez o tempo corresse (2x)
E a tua voz me ajudasse / A cantar
Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar
Por trás daquela janela (2x)
Faz anos o meu amigo / E irmão
Na noite que segue o dia (2x)
O meu amigo lá dorme / De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré
Por trás daquela janela (2x)
Faz anos o meu amigo / E irmão
Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão


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