Amanhã... Yo La Tengo!

Os Yo La Tengo são uma paixão-indie que me afaga o coração há uns bons dez anos. Uma banda com um conhecimento quase enciclopédico da história da pop e que tem sabido ao longo da sua já longa carreira renovar-se constantemente, filtrando de forma quase sempre brilhante influências do passado e do presente da pop. O novo álbum “I Am Not Afraid of You and I Will Beat Your Ass” é uma espécie de álbum branco dos YLT, percorrendo diversos estilos e registos que a banda foi ensaiando ao longo dos anos.
Está consagrado nos livros que os YLT começaram por ser uma das milhenas de bandas que se formaram quando ouviram os Velvet Underground. Ira Kaplan e Georgia Hubley, o casal que forma desde o início o núcleo dos YLT, são a materialização do que teria acontecido se Lou Reed e Maureen “Moe” Tucker se tivessem apaixonado e continuado a tocar na mesma banda. São isso e muito mais, felizmente. Onde outras bandas do universo indie despertam paixões momentâneas, logo esfriadas ao segundo ou terceiro disco, os YLT têm-se mantido como um caso de longevidade. Para além da referência VU, cabem no universo dos YLT o legado sónico dos My Bloody Valentine e dos Sonic Youth, a country de feição mais intimista, a sensibilidade da folk electro-acústica dos Fairport Convention, o krautrock, o pós-rock abstracto de uns Tortoise e a pop soalheira dos Beach Boys. Tudo cabe no léxico dos YLT porque eles sempre foram especialista na arte de bem “flirtar” com estilos e porque, acima de tudo, nada se repete quando se tem jeito para escrever boas canções e um som de conjunto sólido mas sempre aberto à novidade.
Aliado a este genial ecletismo, os YLT mantém uma aura de integridade que muito bem cai às bandas indie mas que poucas conseguem manter a longo prazo. Uma recusa dos grandes gestos e do artifício visual em favor de uma total dedicação à música. Assistir a um concerto dos YLT não é tanto um ritual liturgico – excepto quando Ira Kaplan resolve fazer o seu número Hendrixiano de agressão sónica, claro! – mas mais como se Ira, Georgia e o fiel “padrinho” James McNew nos convidassem para entrar nas suas casas e nos oferecessem um show doméstico com afolhamento trienal dos instrumentos incluído. Sempre um show de grande qualidade protagonizado pelos anfitriões.
Vi os YLT ao vivo pela primeira vez em 2000 no Mitchell Theatre em Glasgow, num concerto com os ilustríssimos convidados, Robyn Hitchcock e Sonic Boom. Foi um concerto memorável, centrado nas canções das quase obras-primas "I Can Hear the Heart Beating as One" (1997) e "And Then Nothing Turned Itself Inside-Out" (2000). Amanhã e mesmo sem um disco tão memorável para apresentar, espero outra grande noite com Ira, Georgia e James. Afinal de contas, a arte de bem filtrar (e flirtar com) a memória da música popular não é para todos!


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