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Em busca de alcachofras. A blog by Pedro Nunes

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Location: Lisbon, Portugal

I was having a tuna sandwich when something went wrong and all of a sudden I was sucked into space. I found myself in the distant galaxy of Valpolicela (no relation) and am using this device to send signals to my earthbound comrades. Because I am confused I often pretend to be Spiff the intergalactic explorer extraordinaire. When I am bored I collect artichokes, therefore the name of this blog.

Tuesday, January 23, 2007

A Raínha vai nua

Cresci alimentado por uma certa ideia de "Englishness" que me chegava através do pequeno ecrã. Uma ideia em que o mote era dado pela imagem do logotipo da produtora de televisão Thames com a catedral de São Paulo reflectida no rio Tamisa e o tema musical "Salute to Thames" como peça de fundo. Para mim, mais do que um logotipo a anunciar uma série, aquilo era um código. Sabia que na próxima hora ia ver pessoas com um sotaque refinado, destilando uma classe que começou por ser estranha mas que se foi tornando familiar, vivendo em magníficos edifícios ou ainda mais deslumbrantes cenários rurais verdejantes em fundo. Até os cães (e os cavalos) eram de raça pura, logo melhores do que os rafeiros da Rua José Duro onde eu vivia. Era uma ideia que foi ganhando expressão ao longo dos anos, em séries (não necessariamente da Thames, é certo) tão diferentes como "Os Cinco", "Reviver o Passado em Brideshead" e "Sherlock Holmes". Era aquilo a Inglaterra para mim: um país organizado, disciplinado, de pessoas superiormente bem educadas e ricas, todas com o seu "manor" longe da capital - e já agora com sentido de humor, mas isso não vem muito para o caso.
Depois cresci um pouco mais, conheci um pouco do Reino Unido e fiquei a saber que aquele mundo perfeito era apenas uma pequena parte da realidade complexa que é aquele país. Que quanto mais para Norte viajava mais constatava que a Inglaterra era, na sua totalidade, um país assimétrico, contraditório, desigual e cheio de fachadas sociais, preconceituoso e hipócrita. Depois vivi na Escócia e fui tentando perceber a níveis diversos essas contradições e o facto de, apesar das tensões latentes, a velha Albion permanecer sólida e firme e, no fundo, mais próxima daquela garantia de qualidade que me era dada pelo logotipo da Thames, do que de um reino em decadência.
Tudo isto vem a propósito de "A Raínha", o filme de Stephen Frears sobre a crise na Monarquia, despoletada momentâneamente na sequência da morte da Princesa Diana em Agosto de 1997. É um filme incisivo em que se põe a olho nu e através de um acontecimento singular e amplamente mediatizado, algumas das contradições que fazem a história recente do Reino Unido: a contradição entre o poder monárquico, autista e desfasado do pulsar do povo, o poder político, personalizado pelo recém vencedor projecto New Labour de Tony Blair, e o povo, imerso nas ilusões criadas pela cultura popular dos tablóides e revistas de celebridades.
Ver este filme é como assistir a um estudo de caso perfeito em que damos sentido a uma série de ideias que sabíamos serem coerentes mas que, pela mão de Stephen Frears e com as notáveis interpretações de Helen Mirren (vencedora do Globo de Ouro deste ano) e de Michael Sheen (que, por fazer de Tony Blair pela segunda vez depois da série "The Deal", corre o risco de se tornar indissociável da figura do primeiro ministro) ganham a consistência inabalável de uma tese. A de que o poder é um mundo de aparências e que os Britânicos convivem melhor do que ninguém com essa realidade.
E no fim, ficamos a saber que o empossado primeiro-ministro, ele próprio agindo sob a contradição entre o seu sentido conciliatório e o espírito maquiavélico do assessor Alistair Campbell, salva a monarquia do julgamento em praça pública e restabelece a normalidade. Sim, porque na realidade nada de especial se passou. Apenas um abalo sísmico com epicentro em Paris que fez tremer muito ao de leve o palácio de Buckingham. É isto a "Englishness".

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